Um dedo de Prosa

Vídeo 4ª Cavalgada do Entorno PESB


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Oração do Cavalo

Oração do Cavalo

 

Ao meu dono, ofereço minha oração:

 

Dá-me comida e água, cuida de mim e, quando a jornada terminar, dá-me um banho, abrigo e pasto para eu descansar em conforto.
Fala comigo: tua voz, muitas vezes, significa para mim, o mesmo que as rédeas.
Afaga-me às vezes, para que eu possa servir com mais alegria e aprenda a te amar.
Não maltrates minha boca com o freio e não me faças correr ao subir um morro.
Nunca, eu te suplico, me agridas ou me espanques quando eu não entender o que queres de mim, mas dá-me uma oportunidade de te compreender.
E, quando não for obediente ao teu comando, vê se algo não está correto nos meus arreios ou maltratando os meus pés.
E finalmente, quando a minha utilidade se acabar, não me deixes morrer de frio ou à míngua, nem me vendas para alguém cruel para eu ser lentamente torturado ou morrer de fome, mas bondosamente, meu amo, sacrifica-me tu mesmo e teu Deus te recompensará para sempre.
E não me julgues irreverente se te peço isso, em nome d´Aquele que também nasceu num estábulo.

 

 

Fonte: Revista Sem Fronteiras, Ano V, nº 18.


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Antônio Martins: Uma reflexão histórica

Autor: Rodinei Gonçalves Ribas “Dinei”
Diretor do CEPEC - Araponga
 

 

A Ermida de Antônio Martins foi construída em 1908, no alto da Serra do Brigadeiro, na divisa dos municípios de Araponga e Fervedouro. Hoje, a Ermida é referência cultural da região, recebendo dezenas de visitantes por semana entre turistas e romeiros, devotos da “alma” de Antônio Martins, e que afirmam ter alcançado “Graças”.


Sua história é marcada por uma das mais tristes tragédias ocorridas na região, que com o passar do tempo se converteu em fé e milagres. Ao completar cem anos, nada mais oportuno que prestar-lhe uma homenagem, uma forma de manter viva este importante episódio da nossa história que é recontada de geração em geração.


Antônio Martins, ainda bem jovem, era um homem de bem, já casado, residia no Distrito de São Vicente do Grama, município de Jequeri, era “caixeiro” por profissão, vivia viajando com sua pequena tropa de burros, comerciando mercadorias pela região.


São Miguel do Araponga era um lugar onde ele era muito bem quisto, visto que tinha muitos parentes e amigos, e por ali passava com bastante freqüência com suas tropas carregadas de mercadorias, e como sempre, necessitava pernoitar. Foi então que em uma dessas vindas a São Miguel do Araponga instalou-se na Fazenda do Sr. Manoel Bitencourt Godinho, conhecido por Sô Neco, em Araponga que desde então passou a ser seu “rancho”. Além de ser afilhado, Antônio Martins mantinha relações profissionais com Sô Neco, tanto na comercialização de suas mercadorias, como na mais importante: ele era uma espécie de escriturário da Fazenda, prestava serviços periódicos ao proprietário que tinha uma grande tropa de muares e alguns carros-de-bois, usados no transporte de toda produção da fazenda para a Estação de Cajuri.


Nas vindas a Araponga sempre procedia da mesma forma. Quando terminava as visitas aos comércios do distrito, ia com sua tropa de animais para fazenda do padrinho, após tratar e soltar os animais ia pra sede da fazenda onde trabalhava e ficava de conversas. Esta rotina se repetiu por várias vezes, até se tornar íntimo de toda família. Foi então que começou a ficar muito íntimo de Manuela Bitencourt, filha do Sô Neco, e quando se deram por conta estavam mergulhados em uma paixão proibida. Assim ele começou a vir com mais freqüência a Araponga e, todas às vezes, ao terminar os seus afazeres, ficava de prosa com o pessoal até altas horas e quando todos iam dormir, ficava a sós com Manuela. Não sabiam eles, que alguns levantaram suspeitas.


Por um motivo qualquer, Antônio Martins passou um bom tempo sem vir a Araponga. Manuela entrou em desespero, vivia triste e desolada. Ninguém imaginava o que se passava em sua cabeça e em seu coração, exceto a mãe com suas desconfianças.


Num certo dia, quando Antônio Martins chegou, Manuela muito apreensiva, atordoada, não sabia se ficava feliz ou se desesperava de vez. Ela o procurou o quanto antes e na primeira oportunidade, e entre lágrimas lhe dera a triste notícia: estava grávida e já não conseguia mais esconder da família, pois já se passavam mais de três meses. Antônio Martins recebeu a notícia, e em desespero, procurava a melhor solução, pois já era casado e tinha muito medo da reação do Sô Neco. 


Conversando com Manuela, planejaram fugir para Divino do Carangola e marcou uma data para voltar e buscá-la de madrugada. Assim ele fez. No dia combinado ele veio com dois animais prontos para a viagem, bateu na janela de Manuela, que já o esperava ansiosa com as malas prontas. Ela pulou a janela, montou no cavalo e fugiram, seguindo pela estrada dos Estouros a fim de transpor a Serra do Brigadeiro pela trilha Matipozinho com destino a Divino do Carangola.


No quarto onde dormia Manuela também dormia uma criança, que ficava sob seus cuidados. Como de costume esta criança acordou bem cedinho e sentindo a falta de Manuela, pôs-se a chorar acordando toda a família. Ao irem averiguar o motivo do choro, notaram a janela aberta e a falta de alguns pertences de Manuela.


Sô Neco, parecendo saber o que havia acontecido, saiu pelo terreiro da fazenda e vendo pegadas de animais debaixo da janela mandou que chamasse o Coronel Rafael Jacovine, seu concunhado. Também viera o seu irmão, Antônio Bitencourt, conhecido por “Coronel Totó. Ambos de grande influência e respeito na região. Contou-lhes o que havia acontecido, afirmando ser Antônio Martins o principal suspeito. Imediatamente providenciaram dois jagunços conhecidos por “Luiz da Izefa” e “Miguel do Félix”, para buscarem sua filha de volta e pegar Antônio Martins.


Na manhã do dia 03 de fevereiro de 1908, os dois jagunços saíram. Ginuca, filho do Sô Neco, e o Cel. Rafael Jacovine, seguiram os rastros dos animais, tarefa fácil, pois havia chovido muito à noite e o dia amanheceu nebuloso. A Ordem dada por Sô Neco era apenas trazer sua filha de volta, mais sobre influência dos demais, principalmente do Cel. Totó, ordenou que Antônio Martins recebesse uma punição assim que os pegassem. Eles deveriam virar a Serra da Grama e matá-lo em outro município.


Após quatro horas de cavalgada Antônio Martins e Manuela, cansados, pararam numa encosta fora da estrada, na localidade conhecida por “Lagoa” no alto da “Jacutinga” e, distraídos, não notaram a aproximação dos quatro que chegaram de forma mansa e cautelosa. Ao serem vistos, trocaram algumas palavras dizendo que não iam fazer nada contra ele e que somente iriam levar a moça de volta. Caindo na lábia, Antônio Martins foi surpreendido pelos capangas que o agarraram e o amarraram de costas sobre o arreio de um dos animais.


De volta, seguiam sempre com ela mais à frente, deixando para trás Antônio Martins com os dois capangas. De longe Manuela ouvia os gritos e desesperava-se, suplicava para não matá-lo. Chegando numa encruzilhada por onde se atalhava para a Serra da Grama, se separaram. Ginuca mandou que os dois jagunços seguissem com Antônio Martins por aquele caminho e ele e o Cel. Rafael voltariam com Manuela para a Fazenda, marcando de reencontrar do outro lado da Serra, algumas horas depois.


E assim fizeram. Os jagunços seguiram com Antônio Martins pela trilha, volta e meia faziam paradas para espancar e torturar o infeliz. Em certo momento, Antônio Martins com vontade de urinar, pediu para que parassem e o deixassem fazer suas necessidades. A covardia foi tamanha que pararam e meteram a faca na sua bexiga, perfurando-a e esparramando sangue e urina pelo corpo: - “qué mijá? Mija disgramado!” e assim seguiram torturando e mutilando seu corpo.  Ginuca e Cel. Rafael Jacovine voltaram para casa, lá contaram o que havia acontecido durante a busca. Ginuca trocou de cavalo e seguiu viagem para reencontrar os jagunços. Quando chegou ao local combinado, já ao anoitecer, os jagunços estavam a sua espera e Antônio Martins já estava quase sem vida. Seguiram viagem subindo a Serra da Grama, virando para o outro lado. Lá chegando, Antônio Martins agonizando, pediu água e eles urinaram na sua boca, seguidos de espancamentos e perfurações com faca. Não agüentando mais, implorou para que o matassem logo, para que terminassem com aquela tortura. Apontou para o pescoço onde havia um cordão e para o pulso onde tinha um relógio, oferecendo-os como pagamento pela morte – “leva isto pro cês, me mata de uma vez, leva pro cês isto pro cês lembrar”.


Para terminar o serviço, os jagunços dispararam dezenas de tiro de carabina, deixando o corpo mutilado estendido na beira da estrada. Voltaram para Araponga e contaram ao Sô Neco como tinham feito. Insatisfeito, Sô Neco mandou que Miguel do Félix voltasse lá e picasse todo o corpo, colocasse em um saco, jogasse em um lugar qualquer e que trouxesse uma das orelhas como prova.


No dia seguinte, Miguel do Félix assim o fez. Foi para o alto da Serra da Grama e ao chegar perto do local onde havia deixado o corpo ouviu barulhos e vozes como se estivesse vindo alguém. Então afastou e se escondeu. O barulho cessou e ele voltou, mas sempre que tentava se aproximar do corpo, novamente o barulho retornava. Isto se repetiu por várias vezes: ele se aproximava, o barulho começava. Ele se afastava e o barulho sumia. E assim, ficou por horas tentando terminar o serviço e as  "vozes" o impediam. Mesmo corajoso que era, ficou cismado, com um pouco de medo e foi até que desistiu da tarefa.


Horas depois passou por ali um indivíduo que vendo o corpo avisou a alguns moradores das proximidades. Mais tarde um grupo de pessoas foi até o local, buscou o corpo e o trouxe para o distrito. Ficaram horrorizados com o estado do cadáver. O pároco celebrou uma missa de “corpo presente”, daquelas que, segundo muitos, ficou na história.


A tortura e o sofrimento vivido em suas últimas horas de vida, a morte cruel e covarde fez com que o povo o tomasse por “Santo”, pois alguns, respeitosamente, compararam e comparam até hoje sua morte com a de Cristo. Seus restos mortais estão no cemitério de Araponga, mas pela fama de milagreiro, no local onde fora morto, meses depois ergueram uma capela que se mantém até hoje, conhecida por “Ermida de Antônio Martins” e que foi construída com amor, sangue, fé, devoção e milagres.
 

Notas: Três meses depois nasceu a filha de Antônio Martins, falecida em 2.001, aos 93 anos;
Manuela se casou e teve outros filhos;
Todos os anos são celebradas missas pela alma de Antônio Martins;

Fonte: depoimentos de neto e bisnetos de Sô Neco e de Antonio Martins e de antigos moradores da região.
 

 


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Reportagem Cavalgada Aldeia da Vida


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Um cavalo, alguns amigos, um clube.

O município de Canãa, situado na Zona da Mata mineira, desde a colonização teve uma estreita relação com cavalos. Devido a topografia e a ausência de estradas, que foram abertas somente na década de 40, a prática da cavalgada tornou-se um costume na região.


Num domingo pela manhã, durante um passeio pelos vales e montanhas nos dorsos do cavalo “Guarani” e da égua “Cigana”, dois moradores da Comunidade do PRM tiveram a idéia de juntar alguns amigos e criar um clube de cavalos.


Assim, em 2001, com a mesma inspiração daquele domingo, um grupo de amigos fundou o Clube do Cavalo Guarani.


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A Aldeia da Vida existe e é logo ali.


Deixando esta zona da cidade grande, no sentido Ouro Preto, embrenha-se na Zona da Mata. Após a bela e culta Viçosa, surge a nossa Canaã que por avizinhar-se de Araponga, torna-se co-proprietária da reserva ecológica da Serra do Brigadeiro. Flora, fauna e cachoeiras exuberantes à sua inteira disposição. Local quase que inimaginável para os dias de hoje.


É neste cenário que está plantada a Cabana Aldeia da Vida. Fixa no pouso, infinita na decolagem. Região cafeeira por natureza e enriquecida pela possibilidade de deliciar-se tal-e-qual bandeirantes e tropeiros. No lombo de eqüinos e muares selecionados e devidamente treinados, chega-se ao topo do mundo e bebe-se abundantemente dos seus prazeres.


A cavalgada Aldeia da Vida é uma cachaça da boa, onde até quem é do AA deve BB.

 

Março/2008

 

Antônio Victor, Vivite

 

Volto logo.
 


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Caro Amigo José Antônio

FOI COM UMA GRANDE MISTURA DE SENTIMENTOS QUE ABRI O SITE DA ALDEIA DA VIDA,
AINDA NÃO SEI DEFINIR MEUS SENTIMENTOS,
ALEGRIA, EMPOLGAÇÃO, SATISFAÇÃO, ORGULHO;
SENTI-ME COMO UMA CRIANÇA GANHANDO UM BRINQUEDO TÃO ESPERADO;
RECORDAVA OS MOMENTOS NAS CAVALGADAS ( HÁ DE SE RESSALTAR QUE FORAM EXCLUSIVAMENTE BONS E MARAVILHOSOS;
RELEMBRAVA AS AMIZADES NASCIDAS, ( HOJE REGADAS POR PEQUENOS ENCONTROS OU E-MAILS);
DEU-ME A SENSAÇÃO DE ESTAR EM UM SHOW, RICO, COM PURA NATUREZA;
DEU-ME VONTADE DE SACIAR A SEDE NAS LÍMPIDAS ÁGUAS DOS CAMINHOS SERRANOS
DA TRILHA DO CARVÃO,
SABOREAR A COMIDA TIPICAMENTE MINEIRA, COZIDA EM FOGÃO A LENHA...
MONTAR, MONTAR E MONTAR, CAVALGAR, CAVALGAR E CAVALGAR...
QUISERA PODER ARREAR O CAVALO,
ABRAÇAR OS AMIGOS,
PROSEAR E DAR BOAS GARGALHADAS...
PERDOE-ME, NÃO CONSIGO DEFINIR TAMANHAS SENSAÇÕES.
GOSTARIA APENAS DE HUMILDEMENTE AGRADECER A DEUS POR TER-ME PRESENTEADO COM ESSA RIQUEZA, EM ESPECIAL REVELANDO-ME O TESOURO QUE É A SUA AMIZADE,
OBRIGADO CARO AMIGO,
POR TUDO O QUE TEM ME PROPORCIONADO E ENSINADO,
CREIA, ESTIMO-LHE
E DESEJO-LHE MUITO SUCESSO!!
A ÚNICA EXPRESSÃO, NO MOMENTO QUE CONSIGO FORMULAR PARA DEFINIR "ALDEIA DA VIDA", É:
SIMPLESMENTE, UM ESPETÁCULO!!!!!!!!!!

UM FORTE ABRAÇO, DO AMIGO,

PANTOJA
 


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Vídeo da Cavalgada da Colheita


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Vídeo da Cavalgada do Entorno


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Oração do Cavalo


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O Destino de um povo

Parte II

Hei, Hei, Hei! Levanta a poeira! Hei, Hei, Hei! Sacode a poeira!

A poeira que um povo levanta em sua cavalgada faz voar e revela a marcha de seu destino. 

 

 

Canaã foi e sempre será a Terra Santa para os judeus-palestinos, por ter sido a terra que lhes fora prometida por Deus. Eles chegaram a ela levantando a poeira do deserto, construindo sua história de libertação, conduzidos por seus chefes e guias, porta-vozes de Javé.

 

No decorrer de sua história, seu destino se fez exílio e no exílio. Expulsos de sua terra-mãe por um imperador Romano, viveram a deportação, enfrentaram o desterro e misturaram a corrente das lágrimas com a poeira do degredo. Perdeu a razão de cantar e de dançar num tempo e espaço chamado “diáspora”, dispersão do povo através de diversos países do mundo. E vive ainda hoje, em muitos lugares, essa separação da raíz-terra.
 

Séculos se passaram e pequenas comunidades judaicas conseguiram sobreviver aqui e ali, em várias cidades do Oriente e do Ocidente: Jerusalém Tiberias, Jafa, Gaza, Cesaréia.

 

Hei, Hei, Hei! Sacode a poeira!
 

Mas, o destino de um povo, se é verdade que passa pelo sofrimento e pela provação, também passa pela consistência de sua fé, de seus valores e de suas raízes. É o que faz sua história. Tudo é ultrapassado no destino de um povo que crê em sua história, que se entrega à luta sabendo que não o abandona o Deus de seus antepassados.

 

Sacudindo a poeira, se revela uma história que não parou; uma crença sem desespero; uma dor regada por lágrimas e silêncio das canções. Nação que é a fibra de seus heróis; a consistência de sua gente simples e anônima; até mesmo o rosto dos sem rostos, mas de olhos abertos clamando por justiça, ansiando por dias melhores e crendo na esperança.

Canaã, Terra Prometida, e mais ainda Terra Comprometida. O Destino de um Povo se faz com a poeira de seus passos e de seus cavalos; de suas danças e canções; e de suas mãos entrelaçadas. Não é a poeira que os outros jogam no rosto que faz um povo crescer e conquistar seu destino. Esta poeira é preciso sacudir e vencer. Debaixo de toda poeira dos pés de um povo que marcha, que avança e caminha, sempre existe um chão onde se plantam sementes, onde se tecem trabalhos, onde caminham os passos de cada um, marcando os sulcos de uma trajetória.

 

Pode haver razões para não se cantar e não se dançar, mas há sempre razões de se dançar e cantar “porque jamais terminar o caminhar, só o amor ensina onde se aí chegar”. Esse dinamismo e energia transformam a história em destino de um povo.

 

CANAÃ – CARNAVAL 2
 


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Vento, Janelas e Eu

Os primeiros ventos gerais aparecem, doidamente, que nem um bando de crianças travessas e brincalhonas. Os cabelos esvoaçantes das moças determinadas a mantê-los ordenados, assanham-se como que para provocá-las. Os garotos, ao contrário, saem pelas estradas a cavalgar, encontram um colega para disputar o galope e provocam o levantar da poeira. 

 

As crianças são as que mais sofrem com a correnteza do vento, porque independentemente de fazer ou não frio, são revestidas em grossos casulos, lembrança do paletó de flanela xadrez, já desbotado e algumas vezes cheirando a suor. Já que vento significa gripe, resfriado e até pneumonia, também toquinha de lã é usada como soldado vigilante ao ataque de suas rajadas.

 

Minha vida, desde cedo, é permeada de ventos e janelas. As janelas eram grandes guardiões dos ninhos. O vento, quando chegava, dava de cara com a madeira enrijecida e, mesmo assim, era tão teimoso que entrava pelas frestas como um intruso e penetrava em qualquer espaço, por mínimo que fosse, sem qualquer cerimônia.

 

Eu adorava andar pelas tardes frescas no Vale da Tiririca, quando o vento se fazia presente. Roupas dançando no varal me encantavam. Mais pareciam bailarinas ritmadas ao som tribal da natureza. 

 

Um dia escutei alguém contar que o vento espanta até chuva. Comecei, assim, a gostar dele, pela sua fortaleza de alcançar alturas inimagináveis e, ao mesmo tempo, de brincar na terra fazendo redemoinhos onde, diziam, ser a morada do demônio e que não se devia passar por perto. Corríamos deste fenômeno como se ele tivesse um poder sobrenatural, comandado pelo vento.

 

Ventos e janelas sempre foram parte de minha vida, presentes como uma dualidade de grandes filósofos defendendo suas teses de espaço e limite.

 

Certa vez, ia para a Fazenda de Tia Zilda, passando pela mata conhecida como “Alto Machado”, pude perceber as melodias tiradas da natureza pelo Senhor Vento. As mangueiras gigantescas, quais damas graciosas, cediam passagem ao simpático cavalheiro. Os bambus também emitam sons, ora demonstrando frescor, ora revelando temor de serem arrebatados.

 

E os pássaros, em especial os gaviões e os urubus, estes sim, desejavam alçar vôos como ele. O vento

era seu transporte. Bastava planar que a grande navegação universal os conduzia com total doçura e suavidade que me deixavam tão impressionado e desejoso de ser como um deles.

 

Nossa família nunca teve o hábito de ir à praia, por questões financeira e cultural. Quando terminei a 8ª série, em Canaã, no ano de 1972, nossa turma organizou uma viagem para conhecer o litoral. Como mineiros, aquilo era inédito: ver o mar, tocar o mar, entrar no mar , mesmo não tendo simpatia para banho prolongado. O ônibus não comportava nem suspiro por causa dos biscoitos e da farofa. A bagunça se generalizou de tal modo que se tornou um ritual.

 

Quando olhava o mar, me sentia minúsculo diante daquela bacia sem limites. O diretor do colégio alertava sobre as marés e, infinito como o mar, também lá estava o vento.

 

E... Que vento! Dele dependiam as navegações, as ondas, a pesca, a confiança e o medo. Percebi, então, que ele morava em toda parte e fui apaixonando-me ainda mais por ele.

 

Vovó, mamãe, e irmãos, que naquela época estavam com as cabeças atoladas em coisas corriqueiras de vida, não percebiam que minha paixão pelo vento estava crescendo de maneira marcante e terna. Amava quando ele soprava meus cabelos, fazia derrubar meu chapéu, inventava as belas ondas do mar e era a grande nave dos pássaros de grande porte. Decidi, então, aliar-me ao vento.

 

Percebi que este não era o mesmo sentimento da vovó, mamãe, irmã, enfim, das mulheres da família. Talvez pelo natural excesso de proteção das mulheres.

 

Comecei a criar maneiras de facilitar sua entrada em minha vida. Uma destas descobertas foi a delícia de abrir janelas para dar passagem ao meu amigo. Como era sem cerimônias e brincalhão! Ele derrubava papéis, batia portas, espalhava poeira pelo chão e pelos móveis, como que numa tentativa esforçada de dar trabalho para as mulheres fixadas em limpeza, que prefiro não nominar.

 

Teve início uma grande confusão...

 

O matriarcado, como em grande campo de batalha, fez um pacto em oposição ao vento e foram usadas portas e janelas como ferramentas.

 

Eu, como seu aliado, derrotava estas armas com um simples destramelar de janelas. Imediatamente a gritaria era geral: “Menino, fecha esta janela! Tranca a porta! Você vai se resfriar! Vai acabar empoeirando os móveis!” Pensei num jeito de abolir as janelas.

 

Construí um varandão, onde o vento pudesse ingressar sem a prestação de concurso normalmente obrigatório, valendo-se de expedientes escusos. Fiquei feliz com a possibilidade de conviver harmoniosamente com o meu amigo vento. Não sabia, porém, que isso iria trazer danos aos meus convidados na hora das chuvas de vento.

 

Adoro a varanda. E as mulheres não podem fechá-las.

Passei a refletir mais profundamente sobre um fato corriqueiro. Por que as mulheres tendem a fechar janelas? Cheguei a várias conclusões. Uma delas é que o vento não é coisa feminina. Seu próprio nome implica em masculinidade. Mas sendo o vento exatamente masculino, por que as mulheres, tão femininas, atreviam-se a fechar as janelas? Era-me inconcebível imaginar a separação entre o masculino e o feminino...

 

Comecei a observar as características do vento. Ele não fala muito. Não faz barulho como os trovões. Provoca ondas do mar, porém com cavalheirismo. As grandes águas se deixam tocar por ele e obedecem a sua direção. Afasta as nuvens fazendo brilhar o sol.

Nestas e em tantas outras situações, identifiquei características bem masculinas. Observei também que ventos podem se transformar em furacões que arrastam tudo o que estiver em seu caminho. Haveria homens assim?

 

Entrei no universo feminino e olhei minha vó, minha mãe, minha irmã, minha sogra e minha mulher... Todas fecham janelas.

Passei a investigar como poderia resolver tal dilema. Levantar mais cedo e abrir todas as janelas para o vento entrar, era desejo ardente em mim. Depois de muito pensar, muito brigar e discutir a respeito de ventos, correntes de ar e janelas, decidi resolver totalmente a questão geradora de conflitos familiares.

 

Cheguei a duas “conclusões científicas”, digamos: comprar vidros de laquê ou estudar sobre o vento dentro da concepção da medicina oriental. Depois de muito pesquisar, observar, experimentar, comprovar e trocar idéias optei pelo respeito ao estudo que minha mulher tem realizado sobre o vento e a medicina chinesa.

 

Desde então, todos vivem felizes, com as fanelas fechadas para barrar a entrada do vento.

 

Eu, no entanto, continuo na busca incessante de como abrir janelas para o vento, sem perturbar as mulheres que tecem a minha vida.

Quero sentir o vento. Voar com e igual ao vento. Amo-o sempre e mais, mas também amo todas as mulheres do meu viver e do meu voar


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Vamos Chamar o Vento!

AVÓ, FILHA, SOGRA, FILHOS, NETO SEU... E O VENTO!

VAMOS CHAMAR O VENTO!

 

VENTO, DIGA POR FAVOR,

AONDE SE ESCONDEU O MEU AMOR!
 

 

Ele inspira tantos poetas e cantores
Ele embala tantos amores e romances
Ele festeja tantos encontros e partilhas
Ele ameniza tantas desventuras e dissabores
Ele leva embora tanta lembrança e saudade
Ele significa tanta passagem de saída e de chegada
Ele sopra tantas idéias e sentimentos
Ele disfarça tanto calor e suor
Ele segreda tanto mistério e confidências
Ele esfria tanto o ar quente e ameaçador
Ele esquenta tanto o frio e tremor
Ele parte sem se ausentar, pois sempre volta
Ele pára sem estacionar

 

VAMOS CHAMAR O VENTO!

 

Para que nos revele o que está longe
Para que nos inspire o que está escondido
Para que nos leve para onde não fomos
Para que nos mostre o rumo sem norte, mas rumo de chegada
Para que nos impulsione a seguir adiante
Para que se faça companheiro no deserto dos dias
Para que nos envolva de vida na escuridão das noites
Para que traga quem partiu e faça partir quem ficou

 

“VENTO, DIGA POR FAVOR,

AONDE SE ESCONDEU O MEU AMOR!”

 

Se ele fosse só vento, pouca coisa haveria de tão suave e animador. Pois, o vento, que é só vento, é brando e fresco, aquela viração, aquela aragem..., uma aura de vida.

 

Mas também se apresenta como vento ventania, vento impetuoso e constante que importuna e desmancha tanta coisa. E pode se transformar em furacão, vento de rajadas, aumentando e diminuindo desordenadamente com uma energia destruidora de tudo por onde passa. Ele se faz turbilhão de violência e rapidez e chega a mudar a face de regiões, cidades e bairros.

 

Quando assim se apresenta, negamos a poesia do cantor e não chamamos o vento. Pedimos e esperamos que ele vá embora e não diga nada. E muito menos que “diga aonde se escondeu nosso amor”.

 

No entanto, apesar do bem-estar que o vento provoca, quando passa e se apresenta dentro de casa - em corredores, quartos e salas -, ele incomoda tanta gente. Todos o chamam de “corrente de ar”, o que, no senso comum, faz mal à saúde, causa resfriados e tosse, prepara a gripe e sopra a febre.

 

Não há avó que suporte o vento “corrente de ar”, sobretudo pelas costas.


- Menino, olha o vento! Fecha a janela! Cuidado com a corrente de ar!”
E se põe a tossir, questionando o vento que invade as paredes da casa.


E atribui a ele, em sua vetusta sabedoria, tanto mal-estar que aflige grandes e pequenos.

 

E a filha, influenciada pela educação recebida da mãe com seus cuidados com a saúde, não pode

agüentar que o vento corra solto e livre por portas e janelas. Próxima ou distante da mãe, ela se torna seu eco: “Menino, olha o vento! Sai do vento! Fecha a porta! Cuidado com o resfriado que estraga a saúde! Vem pra dentro! Se não tomar cuidado com o vento vai ter que tomar injeção.”

 

Pobre da sogra! Ainda que goste de um ventinho, tem que detestá-lo para sintonizar com a família unida, para se fazer agradável à opinião da nova família, especialmente no cuidado extremo com o filho que ela conseguiu arrebatar dos laços familiares.
 

Sogra não pode gostar do vento. Daquele vento que, correndo pela casa toda, indispõe tanta gente e ameaça. Ele tão intruso na casa como, às vezes, ela também se sente.

 

Os filhos, ainda crianças, nem estão aí para a corrente de ar. Também amam o vento, porque amam tudo que é vida, tudo que é movimento, tudo que mexe e remexe com as coisas.
Mas há os filhos não tão crianças que já experimentaram os riscos à saúde. Estes, detestam o vento que passa, não suportam a corrente de ar que perturba e esfria. Além disso, em virtude do extremo o carinho pela avó e do desejo de não desmanchar o bem-estar da mãe, perseveram em não suportar o vento que perpassa a casa.

 

E o refrão da avó repercute com força na cabeça e no corpo dos netos que também se fazem inimigos, ainda que muitas vezes inconscientes, de qualquer corrente de ar que desagrade a vovó, assuste o cuidado extremoso da mãe ou prejudique a convivência do lar.


Eles não sabem bem o porquê, mas sabem que não podem gostar do vento que sopra e invade as paredes do quarto, gerando, às vezes, medo com o seu uivo e suas manobras penetrantes.

 

VAMOS CHAMAR O VENTO!

 

Só eu, único amigo do vento. Apaixonado por uma corrente de ar, ventilador inventado por Deus, gosto do vento! E sou um solitário em “chamar o vento”, em gostar do vento, sem medo do que ele possa causar, a não ser quando se enerva, enfurece e destrói.
 

Só eu amo as janelas escancaradas, as portas abertas, as cortinas oscilantes, as correntes de ar invadindo de movimento e alegria as paredes da casa. Oh, pudesse eu dormir ao relento, sentindo o vento dos pés à cabeça, pondo à prova o calor natural do corpo...

 

Mas é um jogo que enfrento sempre que venta e a casa vai se fechando para impedir qualquer sinal verde da brisa e do vento como habitantes naturais do nosso lar.
 

Morro sufocado, mas asseguro, na minha provação, a certeza da saúde da avó, a sábia experiência de mãe e filha, a presença da sogra amiga, a derrota para os filhos (mais numerosos que eu) e, na mentalidade e na sugestão assimilada pelos netos, a certeza da infelicidade de gostar do vento.

Avó, filha, sogra, filhos, netos, eu... E o vento. Que mal ele fez para não ser bem recebido? Que mal tem causado com o saudável excesso de ar que corre e percorre? Que doenças acontecem quando o vento encharca de movimento e alegria as pessoas unidas em quatro paredes?

 

Não vou morar com o vento. Não quero viver de vento. Mas amo o vento solto, livre e sem rumo. Esse fenômeno tão natural e tão divino que, na linguagem bíblica, significa Espírito, Sopro, Vida, Energia.

 

Dentro de casa, o risco de viver na corrente saudável de ar converte-se muito mais em vida, do que a

privação da aragem pura e caminhante do vento que passa.

 

VENTO QUE ASSANHA OS CABELOS DA MORENA,
ME TRAZ NOTÍCIA DE LÁ...DE LÁ DE CASA!


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Dança do Ventre

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