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Cavalgada em homenagem ao cavaleiro “Antônio de Penha”

Postado em 24 de setembro de 2014

A Aldeia da Vida – Turismo Ecológico e os Clubes de Cavalos de Canaã e região convidam para a cavalgada em homenagem ao cavaleiro “Antônio de Penha”, no domingo, dia 28 de setembro de 2014.

PROGRAMAÇÃO

08h00 – Café da Manhã – Aldeia da Vida

09h00 – Saída com destino à Cabana do Antônio de Penha

             Itinerário: Aldeia da Vida – Indaiá – São Luiz – Palmeiras – Marcela – Lopes – PRM

11h00 – Almoço de Confraternização

              Cardápio: Feijoada e Boi no rolete

15h00 – Sorteio de uma mula

16h00 – Encerramento

 

Antônio Martins: Uma reflexão histórica

Postado em 18 de maio de 2014


 

 

Autor: Rodinei Gonçalves Ribas “Dinei”
Diretor do CEPEC – Araponga

 

A Ermida de Antônio Martins foi construída em 1908, no alto da Serra do Brigadeiro, na divisa dos municípios de Araponga e Fervedouro. Hoje, a Ermida é referência cultural da região, recebendo dezenas de visitantes por semana entre turistas e romeiros, devotos da “alma” de Antônio Martins, e que afirmam ter alcançado “Graças”.


Sua história é marcada por uma das mais tristes tragédias ocorridas na região, que com o passar do tempo se converteu em fé e milagres. Ao completar cem anos, nada mais oportuno que prestar-lhe uma homenagem, uma forma de manter viva este importante episódio da nossa história que é recontada de geração em geração.


Antônio Martins, ainda bem jovem, era um homem de bem, já casado, residia no Distrito de São Vicente do Grama, município de Jequeri, era “caixeiro” por profissão, vivia viajando com sua pequena tropa de burros, comerciando mercadorias pela região.


São Miguel do Araponga era um lugar onde ele era muito bem quisto, visto que tinha muitos parentes e amigos, e por ali passava com bastante freqüência com suas tropas carregadas de mercadorias, e como sempre, necessitava pernoitar. Foi então que em uma dessas vindas a São Miguel do Araponga instalou-se na Fazenda do Sr. Manoel Bitencourt Godinho, conhecido por Sô Neco, em Araponga que desde então passou a ser seu “rancho”. Além de ser afilhado, Antônio Martins mantinha relações profissionais com Sô Neco, tanto na comercialização de suas mercadorias, como na mais importante: ele era uma espécie de escriturário da Fazenda, prestava serviços periódicos ao proprietário que tinha uma grande tropa de muares e alguns carros-de-bois, usados no transporte de toda produção da fazenda para a Estação de Cajuri.


Nas vindas a Araponga sempre procedia da mesma forma. Quando terminava as visitas aos comércios do distrito, ia com sua tropa de animais para fazenda do padrinho, após tratar e soltar os animais ia pra sede da fazenda onde trabalhava e ficava de conversas. Esta rotina se repetiu por várias vezes, até se tornar íntimo de toda família. Foi então que começou a ficar muito íntimo de Manuela Bitencourt, filha do Sô Neco, e quando se deram por conta estavam mergulhados em uma paixão proibida. Assim ele começou a vir com mais freqüência a Araponga e, todas às vezes, ao terminar os seus afazeres, ficava de prosa com o pessoal até altas horas e quando todos iam dormir, ficava a sós com Manuela. Não sabiam eles, que alguns levantaram suspeitas.


Por um motivo qualquer, Antônio Martins passou um bom tempo sem vir a Araponga. Manuela entrou em desespero, vivia triste e desolada. Ninguém imaginava o que se passava em sua cabeça e em seu coração, exceto a mãe com suas desconfianças.


Num certo dia, quando Antônio Martins chegou, Manuela muito apreensiva, atordoada, não sabia se ficava feliz ou se desesperava de vez. Ela o procurou o quanto antes e na primeira oportunidade, e entre lágrimas lhe dera a triste notícia: estava grávida e já não conseguia mais esconder da família, pois já se passavam mais de três meses. Antônio Martins recebeu a notícia, e em desespero, procurava a melhor solução, pois já era casado e tinha muito medo da reação do Sô Neco. 


Conversando com Manuela, planejaram fugir para Divino do Carangola e marcou uma data para voltar e buscá-la de madrugada. Assim ele fez. No dia combinado ele veio com dois animais prontos para a viagem, bateu na janela de Manuela, que já o esperava ansiosa com as malas prontas. Ela pulou a janela, montou no cavalo e fugiram, seguindo pela estrada dos Estouros a fim de transpor a Serra do Brigadeiro pela trilha Matipozinho com destino a Divino do Carangola.


No quarto onde dormia Manuela também dormia uma criança, que ficava sob seus cuidados. Como de costume esta criança acordou bem cedinho e sentindo a falta de Manuela, pôs-se a chorar acordando toda a família. Ao irem averiguar o motivo do choro, notaram a janela aberta e a falta de alguns pertences de Manuela.


Sô Neco, parecendo saber o que havia acontecido, saiu pelo terreiro da fazenda e vendo pegadas de animais debaixo da janela mandou que chamasse o Coronel Rafael Jacovine, seu concunhado. Também viera o seu irmão, Antônio Bitencourt, conhecido por “Coronel Totó. Ambos de grande influência e respeito na região. Contou-lhes o que havia acontecido, afirmando ser Antônio Martins o principal suspeito. Imediatamente providenciaram dois jagunços conhecidos por “Luiz da Izefa” e “Miguel do Félix”, para buscarem sua filha de volta e pegar Antônio Martins.


Na manhã do dia 03 de fevereiro de 1908, os dois jagunços saíram. Ginuca, filho do Sô Neco, e o Cel. Rafael Jacovine, seguiram os rastros dos animais, tarefa fácil, pois havia chovido muito à noite e o dia amanheceu nebuloso. A Ordem dada por Sô Neco era apenas trazer sua filha de volta, mais sobre influência dos demais, principalmente do Cel. Totó, ordenou que Antônio Martins recebesse uma punição assim que os pegassem. Eles deveriam virar a Serra da Grama e matá-lo em outro município.


Após quatro horas de cavalgada Antônio Martins e Manuela, cansados, pararam numa encosta fora da estrada, na localidade conhecida por “Lagoa” no alto da “Jacutinga” e, distraídos, não notaram a aproximação dos quatro que chegaram de forma mansa e cautelosa. Ao serem vistos, trocaram algumas palavras dizendo que não iam fazer nada contra ele e que somente iriam levar a moça de volta. Caindo na lábia, Antônio Martins foi surpreendido pelos capangas que o agarraram e o amarraram de costas sobre o arreio de um dos animais.


De volta, seguiam sempre com ela mais à frente, deixando para trás Antônio Martins com os dois capangas. De longe Manuela ouvia os gritos e desesperava-se, suplicava para não matá-lo. Chegando numa encruzilhada por onde se atalhava para a Serra da Grama, se separaram. Ginuca mandou que os dois jagunços seguissem com Antônio Martins por aquele caminho e ele e o Cel. Rafael voltariam com Manuela para a Fazenda, marcando de reencontrar do outro lado da Serra, algumas horas depois.


E assim fizeram. Os jagunços seguiram com Antônio Martins pela trilha, volta e meia faziam paradas para espancar e torturar o infeliz. Em certo momento, Antônio Martins com vontade de urinar, pediu para que parassem e o deixassem fazer suas necessidades. A covardia foi tamanha que pararam e meteram a faca na sua bexiga, perfurando-a e esparramando sangue e urina pelo corpo: – “qué mijá? Mija disgramado!” e assim seguiram torturando e mutilando seu corpo.  Ginuca e Cel. Rafael Jacovine voltaram para casa, lá contaram o que havia acontecido durante a busca. Ginuca trocou de cavalo e seguiu viagem para reencontrar os jagunços. Quando chegou ao local combinado, já ao anoitecer, os jagunços estavam a sua espera e Antônio Martins já estava quase sem vida. Seguiram viagem subindo a Serra da Grama, virando para o outro lado. Lá chegando, Antônio Martins agonizando, pediu água e eles urinaram na sua boca, seguidos de espancamentos e perfurações com faca. Não agüentando mais, implorou para que o matassem logo, para que terminassem com aquela tortura. Apontou para o pescoço onde havia um cordão e para o pulso onde tinha um relógio, oferecendo-os como pagamento pela morte – “leva isto pro cês, me mata de uma vez, leva pro cês isto pro cês lembrar”.


Para terminar o serviço, os jagunços dispararam dezenas de tiro de carabina, deixando o corpo mutilado estendido na beira da estrada. Voltaram para Araponga e contaram ao Sô Neco como tinham feito. Insatisfeito, Sô Neco mandou que Miguel do Félix voltasse lá e picasse todo o corpo, colocasse em um saco, jogasse em um lugar qualquer e que trouxesse uma das orelhas como prova.


No dia seguinte, Miguel do Félix assim o fez. Foi para o alto da Serra da Grama e ao chegar perto do local onde havia deixado o corpo ouviu barulhos e vozes como se estivesse vindo alguém. Então afastou e se escondeu. O barulho cessou e ele voltou, mas sempre que tentava se aproximar do corpo, novamente o barulho retornava. Isto se repetiu por várias vezes: ele se aproximava, o barulho começava. Ele se afastava e o barulho sumia. E assim, ficou por horas tentando terminar o serviço e as  "vozes" o impediam. Mesmo corajoso que era, ficou cismado, com um pouco de medo e foi até que desistiu da tarefa.


Horas depois passou por ali um indivíduo que vendo o corpo avisou a alguns moradores das proximidades. Mais tarde um grupo de pessoas foi até o local, buscou o corpo e o trouxe para o distrito. Ficaram horrorizados com o estado do cadáver. O pároco celebrou uma missa de “corpo presente”, daquelas que, segundo muitos, ficou na história.


A tortura e o sofrimento vivido em suas últimas horas de vida, a morte cruel e covarde fez com que o povo o tomasse por “Santo”, pois alguns, respeitosamente, compararam e comparam até hoje sua morte com a de Cristo. Seus restos mortais estão no cemitério de Araponga, mas pela fama de milagreiro, no local onde fora morto, meses depois ergueram uma capela que se mantém até hoje, conhecida por “Ermida de Antônio Martins” e que foi construída com amor, sangue, fé, devoção e milagres. 
 

Notas: Três meses depois nasceu a filha de Antônio Martins, falecida em 2.001, aos 93 anos;
Manuela se casou e teve outros filhos;
Todos os anos são celebradas missas pela alma de Antônio Martins;

Fonte: depoimentos de neto e bisnetos de Sô Neco e de Antonio Martins e de antigos moradores da região.
 

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